sábado, 24 de fevereiro de 2007

Microcontinhos

Chapéuzinho detestava vermelho e achava aquela capinha com capuz totalmente fora de moda, mas quando teve de ir para a casa da vovó, só havia ela no guarda roupa.
dad

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Microcontinhos

Joãozinho não sabe o perigo que corre ao exibir este dedinho mindinho tão magrinho; é que a bruxa está de dieta!

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Microconto 00013

Nunca acreditei em videntes ou ciganas,mas quando aquela mulher pegou a palma de minha mão, vaticinou:
- é muito curta tua linha da prosperidade e da vida!!
Não me cobrou nada,simplesmente virou me as costas e se foi. Não tive dúvidas,ao chegar em casa peguei uma faca e procurei dar formas mais favoráveis ao meu destino.


dad


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Microconto 00014




Pintura de Jean-Léon Gérôme


Sentiu que a vida terminaria em segundos, tentou pensar em alguém... É estranho, quando sentimos que tudo está por terminar, a única pessoa em que conseguimos pensar somos nós mesmos !

dad
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Microconto 00012

O casamento veio se desmanchando com os anos.Um dia, por amigos ouviu falar do Jogo Cego:numa casa de encontros, em uma sala totalmente às escuras as pessoas se encontravam sem se verem o que significava nenhum tipo de compromisso.Uma noite resolveu participar do Jogo Cego. A casa com total discrição e isolamento conduzia todos a uma sala,lá nada se enxergava.Tateando as pessoas iam se encontrando e dando vazão a todos os seus desejos.Ele sentiu uma mão sobre a sua,com as mãos teve certeza de que era uma mulher,abraçaram e se beijaram.Então ele sentiu o perfume e viu que conhecia também aqueles lábios e sentiu que ela também teve a mesma reação.Separaram-se repentinamente e aos trancos cada um fugiu para o seu lado.
Em casa continuavam com aquele casamento em frangalhos,sobre o Jogo Cego,nenhum dos dois nunca teve coragem de comentar nada.

dad
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Microconto 00011

No futuro as pessoas começaram a morrer devido a um aumento assustador dos corações,eles simplesmente não cabiam mais no peito.Descobriram que a evolução da raça humana havia sobrecarregado o coração com mais uma função:ele era agora o verdadeiro depósito das emoções e sentimentos humanos!
Desenvolveram então uma forma de aparelho que mantinha o coração foram do corpo,garantindo assim a sobrevivência das pessoas.Porém a aparelhagem era tão grande e desajeitada e que somada às dimensões que os corações iam adquirindo,que apesar de manter as pessoas vivas ás tornava totalmente imóveis e dependentes.
Então as pessoas sem alma e sentimento saíram e dominaram o mundo.

dad

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Microconto 00010

Eu a amava,desde um tempo em que eu já não conseguia me lembrar.Mas nunca lhe dissera,demonstrava este amor por atos durante todo o tempo,mas as palavras nunca me saíram.Então elas foram se solidificando e tomando consistência em meu interior.
Então resolvi lhe dizer. Quando estavámos frente a frente,as palavras resolveram se revelar e eu as senti crescerem e subirem e para o meu horror descobri em que elas haviam se transformado.O "TE" saiu cuspido, uma pequenina pedra polida e lisa que caiu próximo aos pés dela, já o "AMO" veio devagar e pesadamente saindo como em câmara lenta,parou entre os meus lábios e caiu aos meus pés.
Também horrorizada ela fugiu.Recolhi as pedras e até hoje as guardo junto a uma foto dela.


dad

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Microconto 00009

Acordei no meio da noite,precisando desesperadamente de uma absolvição! Peguei o telefone e disquei um número qualquer,do outro lado da linha uma voz feminina:
"- Alô? Alô? quem fala?..."
Vacilei por alguns segundos:
"... - é o Alfredo!..."
"- Alfredo?? Não conheço nenhum Alfredo!!" (enfim alguém que não me conhecia,nem aos meus pecados, minhas faltas.)
Ela desligou,batendo o fone com força.O silêncio que se seguiu era o meu perdão,me virei e dormi o sono dos justos.


dad

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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Microconto biográfico

Encontraram Mr.Poe caído numa sarjeta.Durante alguns dias ele agonizou e delirou numa cama de hospital.Balbuciava palavras durante todo este tempo.Como não havia ninguém interessado em escutá-lo, a sua maior estória morreu com ele.

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Microconto 00008

Parei defronte a porta,coloquei a chave na fechadura e com a mão na maçaneta,fechei os olhos. Imaginei todos os comodos: amplos, mobilia nova, móveis bem claros, lindos quadros na parede e o grande quarto de casal e uma linda e aconchegante cama para dois felizes amantes.Girei a chave, abri a porta e entrei no minúsculo quartinho em que iria morar.Sozinho.


dad


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Microconto 00007

Durante toda minha vida procurei cometer o menor número de erros possiveís.Mas cometi um erro fatal quando ao abrir minha porta na segunda-feira, me deparei com o cão na minha soleira.Ele tinha um olhar triste e me fitava imóvel.Levei-o para dentro,para a área de serviço,coloquei uma vasilha com água e os restos do jantar de domingo e fui trabalhar.
Passei todo o dia a lembrar do cão e de seu olhar triste.Ao retornar para casa ao final do dia, comprei-lhe um saco de ração.Ao entrar em casa vi que ele havia devorado toda a cozinha,fogão,armários,mesa,cadeiras,geladeira.Fiquei imóvel com o saco de ração nas mãos e o cão continuava me fitando fixamente.Deixei a ração sobre a mesa e fui dormir.Ao acordar pela manhã vi que ele havia devorado toda a casa.No espaço vazio entre as casas vizinhas só havia eu,o cão e a minha cama.Ficamos parados por um instante,logo o cão deixou de me olhar e se dirigiu a soleira da porta do vizinho.
Fiquei pensando em como iria trabalhar.



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Microconto 00006

Quando se achou preparado convocou a Morte para levá-lo. Ela veio,e cumprindo seus trâmites burocráticos fez a ele uma série de perguntas, afim de encaminha-lo corretamente.Numa das questões pediu a ele que se lembrasse de todas as mulheres a quem amou e como as amou. Ele então passou a fazer uma lista mentalmente:

"Lidia, Carmem, Olivia, Neusa, Maria...
Maria...
Maria...?!?!"

Implorou à Morte para prorrogar-lhe o prazo,pois não havia amado Maria como ela havia merecido.A Morte como boa burocrata que era não lhe deu ouvidos e lhe disse que este tipo de deslize era comum a todos nesta hora, e lhe infligiu um infarto fulminante.
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Microconto 00005

Atirou-se do 15ºandar.O chão se aproximava vertiginosamente,pensou em rezar.Numa janela viu de relance o casal de idosos do prédio,pensou em seus pais.Caia cada vez mais rápido.Em outro andar,viu uma mulher e se lembrou da esposa.Mais algumas janelas e pensou ter visto crianças,pensou nos seus filhos.Na janela do 4ºandar viu seu reflexo e lembrou-se de como era forte e confiante.Arrependeu-se.O chão chegou rápido e nem deu tempo de rezar.

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Microconto 00004

Cumpriu seu ritual. Na noite, véspera de mais um duelo, colocou as armas na mesa e as viu vitoriosas como nas doze vezes anteriores. Deitou-se confiante e aguardou o sono que traria as imagens da sua vitória, como nas vezes anteriores. O sono o encontrou confiante. Na manhã seguinte descobriram que havia fugido. Preferiu a pecha eterna de covarde do que ver mais um de seus sonhos se tornar realidade.(texto publicado na revista Minguante nr.04 - http://www.minguante.com)


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terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

microconto 00003

"Ela lhe deu a rosa no dia em que foi embora, sem aviso e sem motivo. Ficou apenas a flor sobre a cama. Ele então guardou a rosa e a venerou por anos a fio e era como se a flor fosse a amada... Era a flor que alimentava a sua solidão e a sua tristeza, era ela que não deixava que ele esquecesse e retomasse a vida, que fora interrompida no dia em que ela lhe deu a flor.
A flor fora testemunha de quantas lágrimas havia vertido pela ausencia da amada. A flor ressequida pelos anos continuava sendo venerada e sendo testemunha.
Até que um dia num acesso de raiva, quando a solidão e a tristeza se tornaram insustentáveis, ele atirou a rosa no fogo. Arrependeu imediatamente, mas já era tarde, a flor já fora consumida.
Morreu logo depois, pois não havia mais nada a alimentar sua vida, nem a solidão, nem a tristeza e muito menos a amada e a flor."


dad

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microconto 00002

"Um dia os vermes quiseram ser insetos, os insetos quiseram ser passáros, os passáros tomaram o lugar dos gatos, os gatos se transformaram em cachorros, os cachorros quiseram ser cavalos, os cavalos quiseram ser homens, os homens tomaram o lugar dos anjos e os anjos quiseram ser Deus.
O Todo Poderoso então, à zero hora de um domingo e com um estalar de dedos, desmanchou toda a sua criação e começou tudo de novo numa segunda. Ele viu que isto de livre arbitrio não funciona."


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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Conto 0000

Meu primeiro conto:
(esrito em 07/03/1983)

No abandono do teu abraço

Era algo fugidio, etéreo, abstrato demais. Que colocado à luz da lógica se concluiria que eu era louco.
Ou seria mesmo possível que eu amasse um sonho? Mas, afinal de contas porque não? Por que não poderia ter o direito de abandonar-me em mim mesmo? Mas tudo me parece tão irreal que julgo estar no sonho de um sonho.
No início encarei tudo como uma linda fantasia, que me impressionava profundamente.

Lá esta ela novamente, imóvel frente a um espelho invisivel, a se ajeitar com incontida vaidade. No inicio eu a considerei petulante e rebelde, porque aqui no etereo dos meus sonhos era meu mundo,eu era o senhor absoluto. Assim eu seria o seu criador, meu subconsciente a trouxera a vida, mesmo que fosse por algumas horas de sono, eu a possuía... ela era minha!
Mas eu não merecia dela atenção alguma.

Amíude ela parecia sentir alguma coisa no ar, como se sentisse minha presença, movia-se inquieta mas logo voltava a sua inútil posição a frene de nada, a se arrumar numa faina que parecia infinita.
Tentava dizer lhe algo, mas as palavras não passavam de movimentos mudos dos meus lábios, como se abafados por algo inaúdivel. Em uma ocasião tentei toca-la mas todo sonho se esvaiu.
Comecei então a amar o seu mutismo, passei a ser um espectador passivo, aliás o único a ter o direito de ve-la ali todas as noites,no seu infinito espetáculo de tornar-se ainda mais linda.
E passei e a me abandonar cada vez mais em meus sonhos, a ficar ali parado por um tempo indeterminado (dias?horas?segundos?).

Então as noites passaram a não me bastar, eu queria estar sempre com ela, amando intensamente cada gesto seu. Comecei a ve-la a cada minuto, passei a estar constantemente em mim mesmo.
Agora já posso ver o espelho! O reflexo lindo de seu rosto, no espelho em meus sonhos!
Mas algo inacreditável ocorreu: ela não está mais lá!? Mas isso é inconcebivel, pois isso tudo é ela, esse mundo é dela! Então corri até o espelho e vi minha imagem refletida, mas me veio a certeza de que não era eu no espelho!
Tomado de assalto pelo medo,perdi totalmente a compreensão de tudo, eu queria acordar!! Precisava !! Estava num sonho que ia se transformando em pesadelo e estava em minhas mãos acabar com tudo, bastava acordar e tudo voltaria ao normal. Mas estava tudo fora de meu controle, até minha própria imagem no espelho que havia adquirido vida própria e que agora havia desaparecido.
Então me senti só, agora eu era apenas uma imagem sozinha e isolada num espelho.
Finalmente comecei a compreender que nada havia sido sonho, ou melhor, que todos os sonhos são pequenos momentos de uma realidade além da nossa compreensão.
Foi então que ela apareceu e sorrindo me estendeu as mãos, sem pensar que era impossivel fui até o espelho e o atravessei como se estivesse passando por uma porta.
Segurando minhas mãos ela disse:
- Me amaste com verdadeira intensidade, que conseguiste o impossivel. A força de teu amor por mim derrubou uma barreira intransponivel entre dois mundos. Isto tudo por que acreditaste e amaste verdadeiramente pois do contrário ficarias preso eternamente no espelho retido no infinito segundo em que o sonho e a realidade se transformam num só. Agora vem e te abandonas completamente em meu amor, vem e te abandonas no infinito abraço dos teus sonhos.

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

microconto 00001

"Aquela cigarra não cumprirá seu destino. Nasceu muda. E muda viverá eternamente."

dad

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depois de hoje

"Depois de hoje tem o hoje, um pouco antes do amanhã tem hoje."
Yi Sáng
"... ele se empanturara de viver mas só na quantidade de um dia por vez."
Yi Sáng

"- Mas ainda restam as horas, certo ? Passa uma, depois outra, voce as atravessa e ai tem outra."
personagem Richard do livro As Horas de Michael Cunningham


Esse blog é o meu passaporte para viver o hoje, viver na quantidade de um dia por vez e para atravessar as horas.

Sejam bem vindos !!

Contos, narrativas e textos de minha autoria.